Há coisas
Que não se descrevem
Nem se escrevem
Nuns míseros rabiscos
De um quase poema
Há coisas
Que por serem
Assim
Diferentes
Se elevam ao topo
Dos nossos sentidos
Deixando-nos loucos
E mudos...
(Maria de Lurdes Dias - Cleo)
(...)
"Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
(...)
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto."
(...)
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
De alguma forma absurda, nunca estive tão bem.
Armado com as armas de Jorge.
Os muros continuam brancos, mas agora são de um sobrado colonial espanhol que me faz pensar em García Lorca;
o portão pode ser aberto a qualquer hora para entrar ou sair; há uma palmeira,
rosas cor-de-rosa no jardim.
Chama-se Menino Deus este lugar cantado por Caetano, e eu sempre soube que era aqui o porto.
(...)
Abro o I Ching ao acaso : Shêng, a Ascensão ;
agradeço, agradeço, agradeço.
A vida grita. E a luta, continua.
(Caio Fernando de Abreu)