segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Sintomas

nocturnalmirrorshow - revisited



- DOUTOR, ESTOU SENTINDO UMA RIMA TERRÍVEL.

- Onde é que dói?

- Às vezes, é bem aqui no peito. Às vezes, é uma pontada, aqui na cabeça.

- O que é que o senhor faz, quando dói muito?

- Quando eu não agüento mais, eu faço um poema.

- Um o quê?

- Um poema. É um espécie de mancha que dá bem no meio da página. Tem umas apavorantes. Mas também tem manchas lindas.

- E desde quando lhe acontecem esses poemas?

- Desde sempre. Desde quando, antes do ventre da minha mãe, eu fui pensado em alguma galáxia distante, por um planeta boiando na luz de um sol azul-amarelo-vermelho-verde-prata...

- Deixe-me ver sua língua.

- O senhor não leve a mal, mas é uma língua apenas portuguesa. Pouca gente no mundo já viu uma língua como essa.

- É, está feia sua língua. Mas não se incomode, que língua portuguesa ninguém presta atenção.- Não é só a língua, doutor. Às vezes, tenho visões.

- Visões?

- É, vejo círculos, quadrados, triângulos inscritos em hexágonos, e linhas, linhas, linhas...

- O senhor conhece matemática?

- Só de nome.

- É, é mais grave do que eu pensava.

- Vou morrer?

- Um dia vai. Mas antes vai ser pior. O senhor pode ficar famoso.

- Pra sempre?

- Não, quando é para sempre a gente chama glória. A fama passa.

- Ainda bem.

- Mas incomoda muito. Não tem horas em que o senhor sente que tem um estádio inteiro lhe aplaudindo de pé?

- Onde, doutor?

- Dentro da sua cabeça, é claro. Onde mais?

- Que alívio o senhor me contar isso. Pensei que estava ficando louco.

- Quem sabe? Quem sabe o que é loucura?

- Vá saber.

- Deixa eu completar os exames. Tem sentido muitos sintomas de concretismo gástrico ultimamente?

- Só quando eu vejo uma folha de letraset.

- Perfeito. Tem sentindo algum soneto?

- Só de manhã, quando eu vou dormir de estômago vazio.

- Impulsos marginais?

- Depois que fui editado pela Brasiliense, meus sintomas marginais desapareceram. Deviam ser conseqüência do abuso da solidão e do provincialismo paroquial.

- Nada de pornô, espero.

- Um filho-da-puta aqui. Um caralho ali. Porra. Cabaço. Gozar. Só essas coisinhas corriqueiras, que vovó não deixava dizer, mas estão no Aurélio.

- Entendo. Não admira que o senhor tenha tido tantos poemas recentemente. Mas vou receitar uma dieta que vai lhe deixar tão bom quanto qualquer subgerente de vendas.

- Antes disso, será que o senhor não me deixava cantar alguma coisa?

- Cantar? Mas eu não tenho nada aqui para o senhor cantar.

- Pode deixar que eu trouxe umas canções comigo.

- Cuidado. Cantar demais faz mal.

- Não se preocupe, doutor. Eu só vou cantar um pouquinho.

- Está bem. Pode começar.

- Desafinar um pouquinho, não ligue. É assim mesmo:


"Se houver céu depois da terra

e nessa estrela

a eterna primavera

pudera, tomara, que a vida quisera

que a gente se encontrara.

Proutra vida fica,

nosso amor mais louco,

fica tudo muito mais bonito,

fica a dita que faltou pro pouco,

se houver céu...

Se houver céu,

como nessa vida não há,

a gente se achou bichinha

a gente se encontrará,

a gente se encontrará..."


- Letra e música suas?

- Letra e música.

- I see. Deixa-me ver. O senhor tem algum vício?

- Eu amo uma mulher chamada Alice.

- Há muito tempo?

- A vida toda.

- O senhor é o caso mais grave de poesia que eu já vi até agora. Preciso consultar uns colegas.

- O que é que eu faço, doutor?

- Tome duas estrofes e me telefone amanhã cedo, sem falta.


(Paulo Leminski)


Link
Imagem: Mizzie Morawez



sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dança da solidão




Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão
Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão
Camélia ficou viúva, Joana se apaixonou
Maria tentou a morte, por causa do seu amor
Meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado
Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado
Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão
Quando vem a madrugada, meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola, contemplando a lua cheia
Apesar de tudo existe, uma fonte de água pura
Quem beber daquela água não terá mais amargura.

(Paulinho da Viola)

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Homenagem ao Dia Nacional do Samba - 02 de dezembro

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Imagem: "Samba e cores" de Marlez
http://www.arteealgomais.org/2011/02/obras-do-artista-plastico-marlez.html

vídeo:
http://youtu.be/w1vWIzW7nXY

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O valioso tempo dos maduros

Time



Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. "As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos". O meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa... Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial!



(Mário de Andrade)